A banalização da morte

Estava eu dentro do ônibus voltando do trabalho. Faltavam poucos minutos para as dez da noite. Sempre escolho o lugar da janela, depois de um dia intenso de trabalho gosto de ver as pessoas na rua. Conversando, andando, passando o cachorro, abrindo os portões de casa.
Passando pelo Flamengo vi um casal sentado à porta de um boteco. Era a única mesa na rua, arranjada em um cantinho entre a curta frente do boteco e o prédio vizinho. Na mesa, umas 10 garrafas de cerveja. Dava para sentir o clima tão leve do encontro. Invejei.
Sigo pensando em um milhão de coisas ao mesmo tempo. Tenho que preparar tudo pra amanhã, o dia vai ser corrido. Será que janto quando chegar em casa? Estou cansada e sem fome mas é melhor não pular o jantar. Banalidades.

Até chegar à subida da ponte. Noto que uma mulher acaba de se sentar do meu lado. Olho pra o lado, nos cumprimentamos com um abanar singelo de cabeça, e torno meu olhar para fora novamente. Três policiais conversam animados, com um armamento estupidamente pesado. As sirenes do carro que está do lado deles estão ligadas. Antes de ter tempo de voltar a me absorver nos meus pensamentos, um corpo estendido no chão. Sangue do lado da cabeça do jovem. Devia ser jovem.

A mulher sentada do meu lado e eu tivemos a mesma reação. Por um segundo ficamos sem reação nos olhando. Ela também tinha visto o corpo. Ela pegou no celular para mandar uma mensagem. Eu peguei no meu para baixar a música. Como um lapso de luto, talvez.
A vida continua. A morte não nos causa nada além de um sentimento brusco, quase animalesco. Uma compaixão de alguns segundos.

Trabalho com notícias de motos diariamente. Cubro enterros de pessoas que nunca vi antes. Converso com pais desolados, desesperados. Filhos desamparados. E a minha vida continua. A deles também. A dos policiais também. Todos os brasileiros veem notícias de mortes violentas diariamente. Já não nos desperta o mínimo luto. Mesmo ouvindo as entrevistas (que infelizmente eu tenho que fazer) dos familiares. O pedido para que Deus os traga de volta. O grito na hora do sepultamento. É sempre igual, já posso até adivinhar a hora que vou escutá-lo. Entre soluços, a família resolve dar o depoimento. Eles não eram envolvidos no crime. Eles eram pessoas do bem, trabalhadoras. Tinham sonhos.

A banalização da morte só desvaloriza a vida. Nos tornamos blindados a outras vidas. Estamos preocupados em sobreviver ao nosso dia. Seja pela eminência da violência, seja no sentido figurado de aguentar a pressão do dia de trabalho até ao final do expediente sem explodir e desistir de tudo.
Nós temos sobrevivido, apenas. Anestesiados. Corridos. Afastados de nós.

Volto para mim. Meus olhos, antes vagando, agora observam. Tem vivência lá fora. Ou sobrevivência. Alguém corrido. Ou melhor, correndo. Estou chegando. A mulher que estava sentada do meu lado já foi embora. A minha cabeça dói. Deve ser fome. Melhor não pular o jantar.image1

5 Replies to “A banalização da morte”

  1. orgulho de você, amiga. <3

  2. Curto muito a vibe dos seus textos e sua maneira de enxergar os detalhes da vida. Parabéns!

  3. incrível!

  4. kitesurf hotel Carmel Cumbuco venha!!!!!

Deixe uma resposta