Aquele 9º andar

Cidade Cooperativa da Prelada. Com as minhas referências cariocas de vida, hoje o nome me remete a um complexo prisional. Poderia também ser uma sigla de uma comunidade: CCP lembra CDD, de Cidade de Deus. O português é demasiado patrício, como sempre complica o que é fácil. Trata-se apenas de um condomínio na minha querida cidade do Porto.

Eu tinha 4 anos quando fui morar com a minha mãe para a Prelada, no bairro de Ramalde. Até então, Vovó nos abrigava na casa dela no acolhedor bairro da Boavista. Lembro-me até hoje: Rua de Pedro Hispano. A casa era grande. Pé direito alto, edifício muito antigo. Na sala de jantar, havia um interruptor preto, desativado, com espaço para uma campainha. Eu brincava de enfiar o dedo ali dentro. “Vó, juras que havia pessoas que chamavam os criados tocando à campainha?”. A realidade não era tão distante. Mas da nossa, era. Em Portugal a condição dos serviçais é diferente. Nós nunca tivemos empregadas. Eu não entendia muito bem o por quê de um individuo ter que ajudar nos afazeres domésticos que a minha mãe e avó faziam tão bem por conta própria.

Isso, para mostrar que a casa era de outros tempos, como diria a própria Vó Ria. Tinha três quartos, duas varandas: era cheia de armários, portas saletas, banheiros e gavetas – lugares onde eu sempre brinquei de me esconder. O meu quarto era cheio de posters do Brad Pitt, Britney Spears e mais tarde pipocaram alguns da Christina Aguilera. Não foi à toa que me identifiquei com a irreverência dela. Na verdade, esse era o meu quarto mas eu dormia no da minha avó. A coitada fingia que ia dormir comigo mas se pisgava-se mal eu dava a primeira roncada.

A minha infância nessa casa foi incrível. Passei-a com a minha avó. Todos os dias, a minha mãe saía cedo para trabalhar, e me deixava com Vovó, de onde eu só saía de noite. Ela sempre trabalhou muito.

Um dos motivos para isso era a casa que comprou para nós. Sozinha, escolheu um apartamento no nono andar de um dos últimos prédios da Cooperativa da Prelada. Os prédios, quase arranha-céus. Ok. Nem tanto, mas para uma menina de 4 anos eram incrivelmente inacabáveis. Sismava em subir pelas escadas de emergência. N-o-v-e longos andares. Achava que era proibido andar por ali (eu e minha compulsão por adrenalina).

O primeiro dia que dormimos no apartamento ficou na minha memória. Tudo vazio, cada palavra que falávamos ecoava. Havia duas almofadas no chão da sala, em frente à televisão. Dos quartos, sinceramente não lembro. Aos poucos, foi surgindo a mobília, os quadros nas paredes, os eletrodomésticos. Desse processo eu me recordo bem. Era insuportável ir com a minha mãe às lojas de decoração. Horas e horas a fio olhando para o mesmo armário! “Mãe, compra logo!”. Mal eu sabia…

Hoje sei. Haja paciência!

Haja dinheiro na carteira, também. Haja forças nos braços para levar tudo sozinha para casa e ainda carregar uma criança mal humorada nas costas. Haja saco para, depois de tudo isso, ainda montar os móveis, fazer o jantar, me dar banho, colocar para dormir, levar o cachorro para passear, ler um livro, apagar as luzes.

Também tenho montado o meu apartamento sozinha. Que canseira. A exaustão é emocional. Fisicamente, não consigo relaxar. É muita ansiedade! Mas tem me feito pensar na minha mãe. Na nossa primeira casa, na Cooperativa da Prelada. Que lugar mágico. Ficamos uns bons meses sem sofá, sem persianas. A minha cama foi das primeiras coisas a entrar em casa mas segui com a doce mania de dormir acompanhada. Só caía no sono na cama da minha mãe. Até aos… 12 anos (ops)… Também demoramos para ter uma mesa de jantar. Comíamos no chão, naquelas mesmas almofadas em frente à televisão. Criativa que só, a minha mãe inventava que estávamos jantando como o Robisnson Crusue. Foi dela, aliás, que herdei o amor por história, e pela idade média.

As lembranças são incríveis. Toda a cumplicidade que existe entre as minhas coroas e eu foi enlaçada nestes detalhes. Precisávamos umas das outras. A mobília pouco importava.

Nesta minha nova fase, tenho pensado muito na nossa querida primeira casinha. A minha mãe arrumou-a com calma e amor. Tanto que toda a casa do Porto veio conosco para Niterói. Os quadros, bibelôs, candeeiros e armários vieram de container. Mas isso é o de menos. Não é isso que faz o nosso cantinho. Somos nós. E que bom que continuamos juntas, sempre.

Se eu aprendi alguma coisa com a minha mãe é que uma moradia não precisa de nada além de sentimentos bons, amor. Esses nós carregamos dentro de nós, para onde formos.

 

 

Minha doce mania de me enfiar nas cômodas

 

Motivos para gostar da casa da Vovó: a bancada da cozinha. Lá, as guloseimas eram fartas

 

Casa da Vovó

 

Minha mãe e avó no meu quarto dos pôsteres. Não vejo Brad Pitt nem Britney Spears e muito menos Christina Aguilera, mas eu juro que eram predominantes

 

Sofá da casa da Vovó

 

Nós e o nosso Alf, no quarto da minha mãe, onde dormi por mais anos que deveria

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