Maria. Silvia. Jaqueline. Joana.

Os nomes são aleatórios, mas poderiam não ser.

Hoje passei o dia off-line por causa do trabalho. Estava sem sinal, depois sem bateria no celular, e por fim enfrentando um trânsito de três horas – sem saco para qualquer contato virtual/social.

Chegando em casa, vi que o meu facebook estava bombardeado de posts sobre um estupro coletivo. Trinta homens (trinta? Estou lendo direito?). Uma menina dopada, desacordada, drogada, bêbada… (ainda estou pensando no “estupro coletivo” e “trinta homens”). O crime foi filmado, compartilhado, ironizado pelos próprios estupradores (sim, os trinta). Pasmem: os posts foram amplamente retuítados por outros homens.

Continuo lendo alguns posts, mas não há mais nenhuma informação relevante. Aliás, faço questão de não ter acesso a mais informação nenhuma sobre isso. Só consigo sentir medo e repulsa.

Já estou pensando sobre isso há algumas horas. Todos os posts femininos que li (curioso: fiz questão de pesquisar “estupro coletivo” no Facebook e não vi mais do que 5 posts de homens) diziam a mesma coisa: “Não consegui escrever nada durante um tempo”, “fiquei chorando, sem saber o que pensar”. Realmente, palavras não definem a sensação de tomar conhecimento deste tipo de crime.

Para qualquer mulher é mais do que assustador, aterrorizante. Nos vemos no lugar dela. O nosso nome poderia estar naquela manchete. Ou pior, poderia ser a nossa mãe, a nossa irmã, a nossa melhor amiga ou até mesmo aquela colega de trabalho tão insuportável. Não é preciso ser mulher para senti-lo, mas o nosso sentimento é diferente: é de convergência, comunhão – união. Não sei quem é aquela mulher, mas quero protegê-la.

Esse sentimento de união se chama mimimi. Ou melhor, feminismo. O nosso medo é real e é compartilhado. A proteção, também. A mobilização foi tão grande que até às seis horas da tarde, tinham sido feitas 800 comunicações sobre o caso ao Ministério Público. Em uma sociedade na qual você está tão anestesiado a crueldades que mais uma atrocidade destas não passa de uma manchetes que rapidamente é escondida com um rolar da tela, é uma repercussão (muito) louvável.

Um acaso. Enquanto escrevia este texto, uma casa da minha rua foi assaltada. Bandidos renderam os moradores e os fizeram reféns. Fiquei sabendo ao tempo que o assalto acontecia, através de um grupo do whatsapp dos vizinhos. A primeira coisa que pensei com a minha mãe foi o que iria acontecer se tentassem assaltar a nossa casa. Nós realmente não temos nada de valor aqui: jóias, dinheiro, eletrodomésticos ou tecnologias – não temos nada. A resposta da minha mãe foi instantânea.  Em uma casa onde moram três mulheres, o que poderíamos fazer para evitar ser estupradas?

O ponto da infeliz notícia do estupro coletivo e da infeliz indagação da minha mãe é: o estupro não tem nada de sexual. Não é o desejo incontrolável. Não é cometido por “maníacos”, “doentes”. Não é estar na hora errada, no lugar errado. Não é ter olhado da forma errada, para o homem errado. Trinta demônios não estavam juntos por coincidência. Casos de bandidos que estupram mulheres depois de assaltos são recorrentes. Eles não ficam com tesão por causa da ação. Eles não são todos doentes mentais.  A cultura do estupro é a afirmação do poder. Só isso. É a forma mais pré-histórica de dominação da mulher. É subjugar e humilhar alguém mais vulnerável. É a consumação da violência vingativa por vias sexuais.

Hoje, eu e todas as mulheres fomos estupradas de forma indireta: nossos direitos, nossa imagem, nossa identidade. Todos os dias somos.

 

(Obs: Uma coisa que aprendi trabalhando em TV: NUNCA devemos compartilhar este tipo de imagens. Tanto pela integridade da vítima, quanto pela possibilidade de mais doentes mentais assistirem e aplaudirem a barbárie. Além disso, compartilhar fotos e vídeos íntimos é crime.)

One Reply to “Maria. Silvia. Jaqueline. Joana.”

  1. Você comentou na apresentação junto ao Datena, que este foi o caso que mais lhe marcou. Algumas outras jornalistas também costumam dizer isso, que esse caso ficou marcado. Mas por tudo que tem ocorrido no Brasil, pouco se comentou sobre o que de fato mudou após a enorme repercussão do caso. Tudo passou a ser uma discussão criminal ou “campanhas” educativas/sociais, como a da Cleo. Depois ainda teve o caso daquele cantor…

    Seria legal ler ou assistir uma reportagem se hoje, a palavra Não tem a força que deveria ter nessas situações. Ou seja, se algo mudou. Principalmente entre policiais que prestam um primeiro atendimento em casos como esse.

Deixe uma resposta