O ativismo de Raull Santiago

220v. Danger. Acredite.

Raull Santiago está descrito na própria pele. O ativista de Direitos Humanos, nascido e criado no Complexo do Alemão, conversa enquanto digita o próximo post, responde a mais uma mensagem de celular, e ainda acena para os tantos moradores que o reconhecem na rua. Envolvido com ativismo há dez anos, Raull, e os outros os outros integrantes do Coletivo Papo Reto (link do facebook) tenta transformar de forma positiva o dia a dia dos mais de cento e trinta mil favelados do CPX. O trabalho parece como encontrar uma agulha em um palheiro, mas juntos conseguem articular um novo tipo de jornalismo multimídia, que ensinam aos moradores.

A fé de Raull no CPX

Ativismo

As redes sociais se transformam em espaços de denúncias, e os moradores são os denunciantes. Em um lugar onde nunca se sentiram ouvidos, o avanço é grande. No ano passado, conseguiram evitar que policiais militares forjassem um auto de resistência quando o menino Eduardo, de 10 anos, foi executado na porta de casa, em abril de 2015, e de acordo com a primeira versão dos policiais militares, um celular (branco) foi confundido com uma arma, nas mãos de Eduardo. Os PMs atiraram na cabeça do menino. Em poucos minutos, alguns integrantes do coletivo, Raull estava junto, chegaram à rua onde aconteceu o crime, e furaram o bloqueio que a polícia estava fazendo. Eles subiram em uma laje de uma casa perto da casa do Eduardo e pularam os telhados até conseguirem tirar uma foto do corpo e postarem em suas redes, que logo chegou a imprensa, já acusando a execução.

A criação do coletivo denuncia outra lacuna: a imprensa não alcança a favela. “A gente fala do problema, dentro do problema, e às vezes na hora que ele está acontecendo. Não dá para falar da favela sem estar dentro da favela”. A barreira policial é o limite, seja física, seja institucionalmente, acredita Raull. “Quando existe qualquer problema ou confronto na favela, a mídia pede um posicionamento oficial da militar, da polícia. Não é a versão dos moradores – por mais que estejam em maioria ou tenham filmado alguma coisa – que conta”.

Ainda nos jornais, Raull vê uma injustiça: não há espaço para a representação para todos os aspectos positivos da comunidade. “O tráfico é só uma vertente daqui. Os confrontos são pontuais mas a mídia só cobre e mostra esse lado. Nós temos produção cultural aqui, temos saraus, temos eventos, temos MCs, cantores, atores. O lado bom não aparece.”

Pacificação

Ainda este ano Raull pretende ir a Medellín, na Colômbia. Foi de lá que foram copiadas as políticas de segurança que resultaram no modelo de Unidades de Polícia Pacificadoras. A ocupação de favelas e bairros controlados pelo tráfico de drogas no Rio não parece ter dado certo: “não é geral, mas o que se destaca são os problemas”. Do alto do teleférico, Raull mostrou o famoso caminho que traficantes usaram para fugir para o CPX, durante uma operação da polícia militar na Vila Cruzeiro, em 2010. Ele lembra de quando as Unidades de Polícia Pacificadora foram implantadas no complexo. “No início as pessoas não acreditavam, mas houve um período de cerca de dois anos que os moradores ficaram na dúvida. ‘O que vai vir? Será que vai mudar alguma coisa?’. E de fato, os confrontos haviam reduzido, num primeiro momento.”

No teleférico do CPX

No entanto, o cenário mudou quando começaram a haver violações dos direitos dos moradores por parte de alguns. “É bem complicado, só quem mora na favela sabe. Você sabe que os traficantes dentro das leis estão errados, mas não vê eles fazendo erros cometidos pelos agentes do estado, contra ninguém. Olha um exemplo medíocre: eles chegam e almoçam num boteco. Eles pagam o almoço. Aí a polícia chega, almoça, e sai sem pagar. Como você vai mostrar, dizer ao morador pra não ter aversão da polícia? Não é geral, claro. Mas é o que se destaca”.

“Precisamos começar do zero”

À medida que vamos caminhando, Raull começa a ilustrar o que fala, em um movimento que poderia perfeitamente ter sido ensaiado se o nosso trajeto não estivesse sendo escolhido por acaso. “Você consegue entender do que estou falando? Aqui, temos um bunker. É assim que eu chamo. A polícia fica ali dentro, em uma construção que tem janelas que só têm espaço para colocar a arma para fora e atirar. Sem ver quem está passando. Você vê que tem de tudo aqui nessa rua. Comércio, casas, crianças passando. E esse bunker. Eles atiram sem ver. Olha a casa destas pessoas. Têm buracos de fuzil. São do tamanho da minha mão. Muitos buracos, muitos.” Ao almoço, Raull fez uma observação que mostra a sensibilidade que ele (ainda) consegue ter ao falar de um fato tão recorrente na vida dele, que são os tiroteios  “É muito ruim. O barulho da bala desliga todas as luzes. Quando há um disparo de fuzil, tudo para. Quem está escrevendo para de escrever, quem está dançando para de dançar. Eu costumo dizer que no Brasil não há pena de morte, mas aqui, para nós, há”.

Para uma problemática difícil, uma solução mais difícil ainda: “precisamos começar do zero. Em tudo. A UPP não deu certo para a favela. Eles esqueceram de pensar em todo o resto. Precisamos de educação, precisamos de outra atenção aqui. Precisamos discutir políticas públicas, pensar na legalização das drogas e na descriminalização do usuário. A polícia vem aqui e prende uma pessoa que está fumando maconha. Esculacha o cara. Na Zona Sul, essa pessoa é levada para a delegacia e, depois de assinar um termo, é liberada. Aqui a realidade é diferente, e eles focam na parada errada. O consumo aqui não é tão grande assim.”

Articulando esse movimento de dentro de um complexo de comunidades onde há uma presença muito forte do tráfico, é impossível não perguntar a Raull qual a relação com os traficantes que controlam as favelas. A resposta é taxativa “é o que eu digo quando me provam perguntando ou muitas vezes afirmando que conheço traficantes. Eu conheço todos: os da política, os do empresariado, os da favela. Mas se você quer saber se conheço os do CPX, vou te dizer que conheço muita gente envolvida no crime. Moleques que estudaram comigo, que eu conheço das ruas. A rotatividade no tráfico é muito grande, e os que entram são muito novos, e ficam por pouco tempo. Depois, entram outros, e outros. Não conheço quase ninguém hoje em dia.”

O mais fácil de encontrar na internet são vídeos e posts que denunciam ações de policiais, feitos pelo Raull, em primeira pessoa, e muitas vezes em formato de selfie. Desde que o conheci, trabalhando na Globonews, o que mais me impressionou foi como era determinado e destemido. Problematizando quase tudo da sua rotina, o faz com muita leveza, simpatia, mas sem nunca deixar de provocar. Lembro de uma vez que Raull foi ao programa Na Moral, do Pedro Bial, no qual foi promovido um debate entre o ativista e um policial. Em rede aberta, no canal de maior audiência nacional, em um dia que provavelmente todos os olhos de policiais estavam voltados para a TV, Raull disse com toda a confiança “Não gosto de polícia”.

Raull

Alvo constante de ameaças por parte de policiais, perguntei ao Raull se ele não tinha medo. A resposta foi tão curta, que nem vale a abertura de aspas. Não. Pai de dois meninos, um de 20 dias e outro de 7 anos, casado há 2 anos, Raull prefere pensar que seu trabalho será para um futuro melhor das crianças. “Nunca pensei em sair daqui. Não tem como. Como eu tenho esperança? Ah… Eu tenho. Eu acho que estamos melhorando. Precisamos continuar lutando pela favela. É um lugar melhor que tento deixar para os meus filhos”.

O coletivo Papo Reto existe desde 2013 e tem um alcance grande nas redes sociais. Na página do facebook, são mais de 20 mil curtidas. Por conta própria, o Raull faz postagens de diversos assuntos no seu próprio perfil na rede social. A maioria das postagens são avisando moradores de tiroteios ou de feridos nos confrontos. Em questão de segundos, dezenas de compartilhamentos e centenas de comentários.

Raull já foi personagem de diversas reportagens de imprensa internacional. Palestrou na ONU no ano passado, e viajou recentemente a Nova York com a Anistia Internacional. É, junto com o Coletivo, parceiro da ONG internacional Witness, que apoia pessoas que usam as mídias como forma de combate a violações dos direitos humanos.

 

Manuela, Raull e eu depois de horas de conversa e um PF para repor as energias.

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