O “sim”

Uma das minhas últimas publicações aqui foi sobre a experiência de morar sozinha pela primeira vez. Encontrar meu cantinho e nele me reencontrar. Deve ter pouco menos de um ano. Nesse tempo só houve espaço para reviravoltas. Mudanças daquelas de dar frio na barriga – e ao mesmo tempo aquela sensação de borboletas no estômago.

Dois meses depois de me instalar no meu apartamento, surgiu uma proposta de transferência para a sede da Band, em São Paulo. Um turbilhão de sentimentos tomaram conta de mim. Lembro perfeitamente de cada segundo da conversa com o Rodolfo Schneider, diretor de Jornalismo da Band Rio. ele falou com um sorriso no rosto: “uma oportunidade incrível, Jô!”. Eu respondia com os lábios tremendo, não sabia se de vontade de rir ou chorar “posso pensar, Rodolfo?”.

O pedido era para me mentalizar. Eu sabia que no momento eu já tinha aceitado a proposta. Não tinha como não aceitar! Era meu sonho se tornando realidade, bem ali, à distância de um “sim”. Era a confiança em tanto esforço que tive para me estabelecer como repórter. Mas eu sabia que exigiria esforços de mim, e por isso chorei durante uma semana seguida. Chorei para contar para a minha mãe, para a minha avó, para o meu pai, para as minhas amigas… preparei até um super discurso para quando fui contar para o meu namorado. E no fim, chorei! Ele, coitado, só sabia sorrir. De felicidade e com certeza com vontade de soltar uma gargalhada pelo papel ridículo que me estava vendo fazer.

Mas eu chorei… E não era de emoção. Era tristeza. Um drama que só eu via e sentia. Me remeteu à sensação da decisão de deixar Portugal. Agora, 8 anos depois, uma nova grande mudança. Eu mais madura e consciente de mim. Mas ainda insegura e assustada. É que mudar para uma cidade que você não conhece, totalmente sozinha, ter que começar do zero (e eu repito) totalmente sozinha… É de deixar as pernas bambas.

O Universo foi gentil quando colocou as pessoas que eu amo na minha vida. Eu tive o apoio de todos. O incentivo mesmo. Quase que como os gritos na linha de chegada de uma maratona, ou aquele tapa no rosto que o treinador dá ao lutador de boxe antes do round decisivo.

E tudo isso foi necessário. Eu sabia que estava deixando uma parte de mim para trás. Ao longo da vida aprendi realmente o que significa respeitar as diferenças. E as únicas que exigem esforço para compreendermos são as internas. Outra pessoa poderia ter se sentido mais à vontade no meu lugar. Encarado de outra forma. Na época, inclusive, eu me perguntava: “Por que eu não sou mais fácil?”. Tá aí! Mal eu sabia que essa era a minha primeira grande lição na mudança para São Paulo: conhecer os calabouços da minha alma e aceitar as minhas particularidades.

De qualquer forma, e apesar do quê melancólico, me senti aventureira. A mudança em si foi muito rápida e brusca. Três semanas depois do “sim”, eu já estava de endereço novo.

Acho que não importa o lugar do mundo para onde você vá… e quantas vezes você troca de cidade ou país: é sempre uma experiência desafiadora. E, nos primeiros dias, nas primeiras semanas, estar em uma cidade como São Paulo, foi como me deparar com um grande gigante à minha frente. O barulho do trânsito sem parar. Aquelas centenas de lojas abertas vinte e quatro horas. Arte, urbanismo, modernidade. O gigante te envolve aos poucos. Parece que vai te abraçando, até que ameaça te engolir. E a jogada com São Paulo é essa: ou você domina a fera, ou ela te devora.

One Reply to “O “sim””

  1. ♥️

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