Recanto

Das experiências que um jovem tem que ter é dividir uma casa/apartamento com amigos. Tive 3 roomies durante alguns meses. A casa era um encanto. Nós a chamávamos de recanto.

Tinha tudo o que precisávamos para nos sentir no nosso lar – tinha o nosso espírito. Fotos na parede de bebedeiras juntas, uma tv que só ligava na base da porrada, um sofá velho, rasgado, e já sem molas no qual todas nós já choramos paixões não correspondidas, dormimos de ressaca, deixamos cair um pedaço do miojo com batata palha que jantávamos quase diariamente.

Se as paredes falassem, iam contar coisas das quais nem nós nos lembramos… eram conversas sem fim. Elas não falam, mas os vizinhos de cima, sim. E por isso, nenhuma de nós gostava de os encontrar nas escadas. a área de serviço, do lado da sala, era vazada.

Isso não impedia nossas confissões, risadas altíssimas, música brega, festas intermináveis.

Era o nosso refúgio. Primeiro lugar onde nos sentíamos seguras sem estar sob a alçada dos nosso pais. Estávamos umas com as outras, e não havia proteção maior.

Foi no recanto que fiz as minhas verdadeiras amizades. Sem repressão, nós nos conhecíamos… Nos encantávamos por saber que as outras estavam na mesma descoberta da vida. As dúvidas, os medos, as inseguranças. Eram tão grandes dentro de nós. E entre nós, perdiam a monstruosidade. Viravam olhares confidentes, palavras amigas, sorrisos sinceros.

A roupa era espalhada por todos os cômodos. ninguém encontrava a sua. Pratos sujos – alguém se dava mal e lavava a louça de todas. outra, cozinhava. Mas havia dias que nenhuma de nós tinha saco. Rosnávamos meia dúzia de palavras e nos recolhíamos. Nós nos conhecíamos. Sabíamos quando estávamos tristes, magoadas, chateadas.

O clima era contagiante. Quando ruim, era por compaixão. Quando bom, pela felicidade alheia.
Sabe quando uma pessoa fica feliz, e você sorri por consequência? Somos assim.

A cumplicidade não fica só por aí. Se eu faltava à aula, a Juliana também ficava em casa. Se ela estava com preguiça, eu me solidarizava e também dormia até tarde. Se a Gabi queria sair da dieta, nós embarcávamos na pizza com ela. Se a outra Gabi decidia que não gostava mais de alguma pessoa… coitada. Virava automaticamente inimiga de todas.

Mui o além de quem morava lá, o Recamto era as pessoas que entravam e saíam por aquela porta sem qualquer tipo de controle. Todos eram convidados.

Lembro, inclusive, de uma noite estar em meio ao processo enlouquecido de produção da monografia. Eram duas e meia da manhã. Estava de camisola, tomando um chá para me manter acordada. Ouço vozes. Não eram das meninas. Quando a porta abriu, entraram quinze pessoas na nossa sala minúscula. Alguns dos convidados, ninguém conhecia.

O Recanto era coração de mãe. Era a nossa fase de libertação. De nos reconhecermos como mulheres.

Lá, aprendi que essa viagem ao mundo adulto só vale se for bem acompanhada. E eu não trocaria as minhas companhias por nada neste mundo.

One Reply to “Recanto”

  1. Joana boa tarde! Eu tb já dividi uma casa com amigos e era assim como vc descreveu a sua. A diferença era que morávamos fora do Brasil e quando a saudade batia forte longe da família a dor da saudade era por vezes insuportável! Mais a vida tem e deve ser assim: lutas, batalhas , dores e frustrações servem para ficarmos cada vez mais fortes. Parabéns pelo site , escreva mais, compartilhe seus momentos e parabéns pelas reportagens na Band News!

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